Como escolher e formar o sucessor em uma empresa familiar?

No Brasil, existe um ditado que diz “Pai rico, filho nobre, neto pobre”. A sabedoria popular nos lembra uma preocupante estatística: a maior parte das empresas familiares não chega a quarta geração sob o comando da família fundadora. Uma parte considerável é encerrada e outras são vendidas a concorrentes ou grupos empresariais.
Um dos motivos para esse resultado é o despreparo na capacitação de herdeiros e escolha equivocada de sucessores. Muitos são os fatores que podem impactar nessas transições: de herdeiros frustrados — que assumem cargos de alta responsabilidade apenas por serem da família — a sucessores interessados, mas que enfrentam desconfiança do time. Independente da conjuntura, a consequência para o negócio pode ser fatal. Porém, com o preparo correto e decisões estratégicas, esse cenário pode ser evitado.

Equilíbrio de expectativas

Os fundadores da empresa familiar tem uma ligação pessoal muito forte com o empreendimento. Por isso, é natural imaginar que os filhos ou algum parente próximo assuma seu lugar à frente dos negócios no futuro. No entanto, não é obrigação de nenhum dos herdeiros assumir um papel de gestor. Cabe a cada um definir seu futuro profissional e se preparar para ter a melhor formação. Não obstante, os herdeiros devem estar cientes de que assumirão, no mínimo, um papel como acionistas do negócio e devem preparar-se para essa responsabilidade.
O ideal é que as expectativas entre sucedidos e sucessores sejam alinhadas o mais cedo possível. Podem surgir arranjos interessantes deste alinhamento: alguns herdeiros podem ter interesse em seguir no negócio, mas em cargos mais operacionais que gerenciais. Outros podem desejar criar negócios que sejam desdobramentos ou soluções para empresa familiar original. Aqueles que não se identificarem de nenhuma forma com o negócio da família devem ser preparados para ser acionistas à altura.

Propósito dos herdeiros

Ainda que o sonho dos pais seja ver os filhos na direção do empreendimento familiar, importante é escolher quem está mais bem preparado para assumir este cargo. Herdeiro não é sinônimo de sucessor. Para definir qual o melhor cargo para cada herdeiro dentro da organização, o ideal é colocá-los em contato com a empresa o mais cedo possível.
Convivendo com o empreendimento desde sempre, além de criar laços afetivos com o patrimônio, desejando uma continuidade saudável, os herdeiros podem identificar suas afinidades com o negócio e os propósitos pessoais e de carreira.
A sucessão não deve ser encarada como uma obrigação que passe por cima de qualquer desejo. Ou, ainda pior, como uma segunda opção caso a vocação almejada não funcione. Estes dois caminhos costumam originar gestores mal preparados, alienados do negócio e da equipe além de, claro, frustrados.
Como falamos anteriormente, o alinhamento de expectativas, aliado ao estímulo dos talentos individuais, é a melhor forma de atrair os melhores sucessores e ter herdeiros preparados e focados no sucesso da empresa, mesmo que apenas na função de acionistas do negócio.

Conhecendo bem o negócio e o mercado

Ainda que a ideia seja assumir o comando da empresa, para garantir uma boa preparação é ideal que o sucessor transite em diferentes setores e cargos dentro da organização.
Além de dar uma visão geral do negócio que irá assumir, isso também permite que a equipe conheça o futuro gestor e perceba que sua escolha não vem apenas dos laços consanguíneos. Ao conviver com diferentes times e processos, o sucessor pode visualizar melhor as mudanças necessárias e quais processos devem ser preservados. Consegue entender as necessidades e ritmos de trabalho de cada equipe e setor, percebendo os impactos disso no negócio como um todo. Pode encontrar soluções inovadoras que transitem de um setor a outro e ainda conhecer de perto funcionários comprometidos, que podem e devem ser preservados para o futuro da empresa.
O pacto de confiança entre esse gestor preparado e os diversos times da empresa é fundamental para que não haja um clima de incerteza durante o processo de transição e também para que o sucessor seja corretamente auxiliado quando assumir à frente do negócio.
Outro ponto de suma importância é que o futuro sucessor tenha experiência em negócios diferentes do seu. Essa estratégia abre os horizontes administrativos ao apresentar novas formas de gestão e solução de problemas, mas é particularmente importante por tirar o herdeiro do ambiente protegido do negócio familiar. Sentir a pressão por responsabilidade e resultados faz com que o lado do funcionário seja entendido e gera gestores mais responsáveis por toda a cadeia de negócios, que não visualizam apenas o lucro final.

Novos negócios ou reinvenção de negócios

Até agora focamos muito na formação do sucessor, mas há um ponto importante na chegada de uma nova geração no negócio familiar. Como clientes e como gestores, esses novos membros trazem experiências diferentes e uma necessidade de modernização e novos ares para o negócio.
Mais uma vez, o diálogo e o alinhamento são fundamentais para este momento. Ainda que a empresa tenha sucesso e trabalhe com os mesmos processos há anos, nenhuma organização sobrevive sem adaptar-se aos novos tempos e inovar frente aos concorrentes.
Escutar as novas ideias trazidas por sucessores e herdeiros, suas experiências em outros empregos, suas vivências enquanto clientes pode ser a chave para modificar pontos que impedem a empresa de crescer frente ao mercado.
Por outro lado, é essencial que os sucessores e acionistas estejam abertos a escutar os mais velhos e aproveitar aquilo que efetivamente funciona dentro do negócio. O diálogo constante permite que a empresa renove-se sem perder sua marca e propósito.
Mais acima citamos a possibilidade de herdeiros que queiram ter os seus próprios negócios. Afinal, crescendo em um ambiente empreendedor, é normal ter esse espírito estimulado. Pela convivência com a empresa e conhecimento do negócio e mercado, uma possibilidade é desenvolver um empreendimento que venha a ser um desdobramento da empresa familiar original. Esse tipo de arranjo não é incomum, principalmente quando nos deparamos com o modelo de negócio escalável que tem crescido no mercado hoje. Herdeiros têm o privilégio de poder arriscar um pouco, com a possibilidade de uma preparação à altura para tocar o próprio empreendimento e isso pode trazer vantagens para todos os envolvidos.

Processo contínuo

A continuidade da empresa familiar não é algo que ocorre de maneira natural. É necessário visão de médio e longo prazo, estratégia e preparação para que a empresa siga crescendo, mesmo sem a presença e gestão direta de seus fundadores.
Avaliar quais as melhores decisões para o negócio é ser honesto sobre as expectativas dos familiares envolvidos, ter uma boa definição do processo de treinamento, além de seleção clara para definir quem assumirá qual cargo.
Mas a formação do gestor é um processo contínuo: uma vez realizada a sucessão, é essencial estar sempre se atualizando, reconhecendo os setores e necessidades da empresa, ouvindo e se adiantando ao mercado. Os futuros herdeiros também devem estar sempre sendo preparados, de acordo com suas expectativas e desejos, garantindo uma empresa longeva e de sucesso.

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