Fundos: efeitos positivos na desintermediação de crédito

A desintermediação chegou às nossas vidas e não vai embora. Este artigo pretende abordar o que está ocorrendo no mercado de crédito, nosso ofício aqui no Asset Management, o que traz efeitos muito positivos aos investidores em geral.

O que é a desintermediação do crédito?

Para obter uma rentabilidade interessante ao investir em um CDB (ou LCI/LCA) é necessário alongar o prazo do ativo, ou seja, deixar o recurso imobilizado por um tempo. Isso acontece porque os bancos captam dos poupadores e emprestam às empresas e pessoas físicas que demandam empréstimos, ficando com os resultados desta intermediação: os spreads.

Porém, os fundos de crédito surgiram para serem um veículo de desintermediação bancária, ou seja, eles fazem a ponte direta entre captadores (emissores) e investidores (cotistas dos fundos).

Aplica-se capital nas empresas produtivas diretamente, alavancando e movimentando a economia. Por eliminarem um nível na negociação, como em toda desintermediação, os retornos são mais interessantes mesmo considerando todas as outras variáveis constantes.

Principais razões da evolução na desintermediação de crédito

  • A internet, incluindo principalmente as redes sociais, e a adoção cotidiana da tecnologia, que impulsionam a informação, antes restrita e pouco disseminada, de que é possível que qualquer investidor obtenha resultados melhores que aqueles tradicionalmente ofertados pelos bancos.
  • Os juros mais baixos que o mundo e o Brasil experimentam, que forçam uma diversificação maior dos portfólios, aumentando a demanda por títulos que ofereçam retornos mais altos, emitidos por companhias que tenham acesso ao mercado.
  • O crescimento das plataformas abertas que, diferentemente dos grandes bancos, não mantém restrita e muitas vezes enviesada a oferta de bons produtos aos seus clientes. Ganha o mercado, ao ganhar mais capilaridade e pulverização, e ganha o investidor que passa a contar com opções muito mais elaboradas e rentáveis do que apenas os tradicionais CDBs bancários.

A desintermediação como sinal de amadurecimento do mercado

A evolução de nosso mercado financeiro, do ponto de vista de quem precisa tomar uma dívida, tem proporcionado que as empresas ajustem o perfil das suas dívidas ou financiem seu crescimento através do mercado.

Apesar dos percalços, o Brasil tem evoluído sim, e muito. Nesta seara, a cada dia cresce a desintermediação nos investimentos. Hoje, os investidores contam com uma sorte enorme de possibilidades de alocação, dentre as quais focarei nos fundos que investem em crédito privado.

Os fundos de crédito privado

Estes fundos são veículos que alocam seu patrimônio em valores mobiliários – sobretudo debêntures – emitidos por companhias de grande porte, pois somente estas têm condições de acessar o mercado. Além das debêntures pode-se investir também em títulos emitidos por instituições financeiras e títulos públicos para seu caixa.

Seus portfólios são compostos por dezenas de títulos, trazendo pulverização e diversificação de prazos (pelas diferentes durations) aos detentores de cotas.

A diversidade de prazos e a quantidade de cotistas que investem no fundo permitem também que a liquidez seja superior ao investimento feito diretamente nos ativos. Isso significa maior flexibilidade nos investimentos.

Além das vantagens acima, destaco o ponto mais importante ao acessar um fundo de crédito privado:

A seleção profissional e criteriosa da carteira, visando produzir os melhores resultados aderentes a cada mandato.

E por que interessa às empresas emissoras acessar o mercado de capitais?

Quando se trata de investimentos, quanto maior a previsibilidade na análise, menor tende a ser o risco. O mercado de capitais, como importante veículo financiador da capitalização das empresas e, consequentemente, do crescimento econômico, demanda um ambiente com menos incertezas e mais transparência para o seu desenvolvimento.

Nos mercados mais desenvolvidos e, cada vez mais, nos mercados em desenvolvimento, o financiamento pelas companhias acontece por intermédio do mercado de capitais, que financia a ampliação de estruturas produtivas, aquisições e até sua internacionalização.

E por que interessa às empresas emissoras acessar o mercado de capitais?

Neste contexto, pela ótica da empresa que acessa o mercado financeiro, seu valor é dado pela razão entre sua geração de caixa e seu custo de capital. Quanto mais saudável seu balanço e mais imbuída dos princípios mandatários da governança corporativa, maior a valorização potencial das ações.

Mesmo racional vale para seus títulos de crédito, que neste caso seriam emitidos a taxas menores e prazos mais longos à medida desta percepção (ceteris paribus). A taxa de desconto considera o custo da dívida e o custo da taxa livre de risco da empresa. Comumente, os analistas do mercado financeiro utilizam uma taxa denominada Weighted Average Cost of Capital (WACC), a qual pondera o risco total da empresa para o cálculo do seu valor.

Nesse sentido, é importante aos investidores dos títulos mobiliários emitidos no mercado (debenturistas e/ou acionistas) compreender a cultura e práticas de gestão adotadas pela diretoria executiva sob orientação do conselho de administração das companhias, este último (o Conselho) cumprindo um propósito estratégico, o qual, como vantagem intangível, também serve à reputação organizacional, realizando checks and balances do planejamento no âmbito qualitativo e quantitativo.

Conclusão

O cumprimento das regras do jogo ajuda a sustentar a credibilidade da empresa, influenciando positivamente seu acesso ao mercado. Isto porque os bons resultados, atingidos de forma correta, influenciam e beneficiam outros públicos – fornecedores, funcionários, formadores de opinião, clientes e a comunidade como um todo – gerando confiança e boa avaliação em relação à empresa.

Então, por conseguinte, uma reputação positiva, respaldada por um balanço sólido e um bom modelo de negócios, são o que possibilita atrair investidores e diminuir custos do capital, deixando evidente a circularidade envolvendo governança corporativa e reputação organizacional.

Estes são os predicados que buscamos para a composição de nosso portfólio, para então olharmos obviamente a precificação e melhor operacionalização dos fundos.

Espero ter compartilhado um pouco desta visão, pois realmente acreditamos que estamos mergulhados na desintermediação, contribuindo para as empresas e o país, e obviamente trabalhando pelos melhores resultados aos nossos cotistas dos fundos de crédito.

* Marcelo Castro Domingos é economista e sócio fundador da DLM Invista

Ainda não existem comentários. Seja o primeiro a comentar!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.